Roberto Carlos

 

RIO – Tão tradicional quanto peru ou rabanada, o especial de Roberto Carlos, exibido há 36 anos quase ininterruptos pela TV Globo, quase sempre na noite de 25 de dezembro, enfim muda de ares. Pela primeira vez, o show acontece ao ar livre, na Praia de Copacabana. E será transmitido ao vivo, coisa que só houve uma única vez, em 1983, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Tudo na produção é superlativo. O palco tem 24 metros de frente por 17 metros de profundidade, ocupando uma área de 408 metros quadrados. Nos bastidores, uma tenda para os convidados com 300 metros quadrados, rodeada por 20 contêineres para abrigar os camarins. Um telão será instalado a cada 70 metros. Ao todo, são 460 metros de extensão cobertos por imagens, do Copacabana Palace até a Avenida Princesa Isabel. O espetáculo deve receber em torno um milhão e meio de pessoas, e será captado por 16 câmeras, sendo uma delas instalada em um helicóptero. Ou seja, ninguém precisa se preocupar: vai ser difícil não ver o Rei.
- Estou com o Roberto há 46 anos. Não me lembro de um show tão grande. O último ao ar livre foi no Aterro do Flamengo, em 2002. Mas não era um especial anual de TV, e não tinha essas proporções. Estamos trabalhando com 400 toneladas de equipamentos. Vamos ter um painel de led no fundo do palco. Dois painéis laterais. E outros painéis a cada 70 metros. Começamos a trabalhar para montar no dia 10. E estaremos aqui até a hora final – diz Genival Barros, encarregado da produção técnica. – Os shows de fim de ano sempre foram feitos em teatros, ginásios, arenas. Muito difícil uma produção como essa. Você parte do zero. Em termos técnicos, a única coisa de que o Roberto não abre mão é a distância entre ele e os músicos. A bateria tem que ficar exatamente a seis metros de onde o Roberto se posiciona.
Quando o Rei se posicionar, certamente vai dizer, cheio de simpatia e charme: “Que prazer rever vocês.” E vai cantar “Emoções”. O maestro Eduardo Lages, com Roberto desde 1978, diz que isso é imutável. O show começa com “Emoções” e termina com “Jesus Cristo”. Só que este ano o roteiro vem com novidades. Terá, por exemplo, “Nêga” e “Todos estão surdos”, que ele não canta há mais de 20 anos. No pot-pourri de sucessos da Jovem Guarda, resolveu incluir pérolas também ignoradas por décadas, como “Lobo mau”, “Eu te adoro, meu amor” e “Ciúme de você”. O clima geral é de samba, com a participação da bateria da Beija-Flor, que homenageará Roberto na Avenida no carnaval de 2011. Participam também Paula Fernandes, Exalta Samba e Bruno & Marrone, além de um coral de crianças da Rocinha. A apresentação fica por conta de Glória Maria. Eduardo Lages conta as novidades dentro do carro estacionado na esquina da casa de Roberto, na Urca, com o ar-condicionado ligado na máxima potência. Atrasado para os ensaios, ele revela que o Rei só começou a ensaiar há duas semanas. No estúdio, o tempo urgia.
- Temos que dosar muito as coisas nesse show. O Roberto tem cinco ou seis músicas que não podem sair do roteiro. De jeito nenhum. Nos últimos dez anos, ele começa cantando “Emoções” e termina cantando “Jesus Cristo”, como faziam Elvis Presley e Frank Sinatra com os seus sucessos. Isso faz parecer que é o mesmo show, mas não é. No miolo, sempre acontecem coisas. E o Roberto está mais aberto para novidades – defende Lages, contra a tese difundida de que o Rei faz o mesmo show há pelo menos uma década. – Ainda não estamos com todo o roteiro fechado. Os ensaios atrasaram muito por conta da agenda do Roberto. Mas há mais quatros músicas que ele não canta há muitos anos que estamos pensando em incluir no show, além das que eu citei.
A figurinista da TV Globo Sônia Soares, que há nove anos veste Roberto, também defende a tese de que ele está mudando, se soltando. Aos poucos.
- Ele é fiel ao estilo: paletó com ombreiras etc. De uns três anos para cá, porém, vejo o Roberto mudando. Diminuiu as ombreiras. Pediu paletós mais justos. Usa a camisa para fora do paletó. Foi ficando mais informal. No ano passado, usou uma camisa de cetim azul-clara por baixo de um paletó mais ajustado ao corpo. Já aconteceu de ele usar azul-marinho com calça jeans – conta Sônia. – Este ano ainda não fechamos a roupa. Temos algumas opções. O mais provável é que ele use um terno off-white.
Os especiais de Natal são um capítulo importante da biografia do Rei. As noites de 25 de dezembro – de certa forma – retratam, ano a ano, as mudanças de Roberto Carlos ao longo da carreira. Os 36 anos podem ser divididos em fases. De 1974 a 1991, fase Augusto César Vannucci, tempos áureos, em que os especiais eram realmente grandes produções, com cenas externas, clipes, entrevistas e participações dos maiores nomes da música: Tom Jobim, Caetano, Bethânia, Dorival Caymmi, Gal Costa… Nesse período, Roberto ainda se vestia de palhaço ou Carlitos, usava roupas coloridas e cantava sucessos renegados, como “Negro Gato”. No primeiro especial, em 1974, cantou “Gaivotas” com o galã Antônio Marcos, a bordo do seu iate, com os longos cabelos ao vento. No ano seguinte, um bate-papo descontraído com Caetano e um dueto que entrou para a História da música: a dupla interpretou “Como dois e dois”. São muitos momentos marcantes.
- Assisti a todos os especiais do Roberto. Eles eram realmente especiais. Conheci os grandes nomes da MPB vendo o programa: Sílvio Caldas, Dorival, Orlando Silva, Aracy de Almeida, a grande dama do Encantado, que eu nem sabia que cantava. Os shows mesclavam clipes, estúdio, palco, externas. Teve uma vez em que ele subiu uma montanha para cantar “Jesus Cristo” – comenta o historiador Paulo César de Araújo, autor da biografia não autorizada “Roberto Carlos em detalhes”. – Lembro-me de uma entrevista do Caetano, em 1982, logo depois da apresentação do especial, em que ele dizia que havia visto o Roberto cantar “Fera ferida” e se apaixonado pela música. Todo mundo acompanhava os shows de fim de ano. Ele lançava os sucessos nos especiais de Natal.
Em 1992, com a morte de Vannucci, a direção dos especiais passou de mão em mão por alguns anos até que Roberto Talma assumiu, em 1998. Desde então, os programas são gravações de shows, com participações especiais. Houve muitos momentos históricos também nessa fase em que Roberto tornou-se, digamos, um homem bege: um dos momentos festejados aconteceu em 2008. O Rei havia assumido publicamente sofrer de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e anunciou que estava se tratando. Na noite de 25 de dezembro daquele ano, cantou pela primeira vez, depois de décadas de jejum, “Negro Gato” e a letra original de “É preciso saber viver”. Até então, ele não pronunciava a palavra mal. Trocava o refrão da música para “Se o bem e o bem existem”.
- Após a morte do Vannucci, o Jorge Fernando dirigiu quatro especiais. Ele colocou uma coisa de humor nos shows do Roberto. Em 1993, a Regina Casé invadiu o palco, fingindo ser uma fã. O Tom Cavalcante participou, imitando o Roberto. Depois veio a fase Talma, que coincide com a fase mais complicada do Roberto. Ele foi se tornando cada vez mais obsessivo – diz Paulo César. – Até 1996, o Roberto ainda lançava discos todos os fins de ano, recheados de grandes sucessos. Com a doença e a morte da Maria Rita, em 1999, ele quebrou a sequência. De 2000 a 2010, os especiais de fim de ano foram basicamente iguais: começam com “Emoções”, têm o momento “Detalhes”, o momento Jovem Guarda, o momento motel e o momento fé encerrando. Tudo é muito fechado, dentro da forma. Roberto não consegue conviver com mudanças. Só vou dar alta para ele no dia em que cantar “Quero que tudo vá pro inferno”. A última vez foi em 1986.
O maestro Eduardo Lages diz que não vai ser desta vez que Roberto vai cantar a “Satisfaction” de sua carreira, lançada em 1965. Mas garante: o especial vai ser especial.
- A gente fazia televisão com o coração. Era outro tempo, outra época. Começávamos a produzir com três, quatro meses de antecedência. O Vannucci gostava de gravações externas, arrojadas. Fizemos coisas inesquecíveis, como gravar com a orquestra inteira no terraço do Maksoud Plaza, em São Paulo – ele diz. – Com o progresso da tecnologia em captação de som e imagem em shows, começamos a mudar, a simplificar. O povo quer mesmo é ver Roberto Carlos. Isso é o que interessa. Vamos terminar este ano com “Jesus Cristo” em ritmo de samba, com o Roberto acompanhado pela bateria da Beija-Flor.

Roberto Carlos leva o público de Copacabana ao delírio
Para delírio dos fãs, o show de Roberto Carlos começou às 21h40 na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, com a música “Emoções”. Na plateia VIP, os atores Marcius Melhem e Carmo Dalla Vecchia e a modelo Luiza Brunet se misturam aos anônimos. “Sou fã dele, tenho a discografia”, conta Melhem, no ar em Os Caras de Pau. Luiza também disse admirar o Rei. “Já fui em outros shows, mas esse é especial porque tem todo esse calor humano.”
Na entrada ao palco, Roberto Carlos saudou os fãs. “Não é o meu primeiro show no Rio de Janeiro, mas é uma honra estar pela primeira vez na Praia de Copacabana, a mais famosa do mundo”. Durante a canção “Como é Grande Meu Amor por Você”, Roberto encantou o público com sua declaração: “Tudo o que eu gostaria de dizer para todos vocês, eu falo nesta canção.”
Por problemas no joelho, o cantor fez a maior parte da apresentação sentado em um banquinho. “Sinto muito, mas acho que vocês entendem. Não tem como (fazer o show em pé). Estou com muita dor”, confessou ele.
Antes de cantar “Amor Perfeito”, Roberto anunciou: “Vou cantar uma música que foi sucesso na voz da querida Claudia Leitte”. A multidão acompanhou em coro. Depois, vestindo um tomara-que-caia azul, a cantora Paula Fernandes fez um dueto com ele. Em seguida, Roberto emendou o clássico ”Detalhes”.
Ao receber a dupla Bruno e Marrone, Roberto mostrou admiração pelos convidados. “É impressionante como eles fazem sucesso”. Eles cantaram o sucesso da dupla “Dormi na Praça”. Outro convidado do Rei foi o grupo Exaltasamba. Comandados pelos vocalista Péricles e Thiaguinho, os pagodeiros apresentaram “Tá Vendo Aquela Lua” e “Fugidinha”.
Outra música cantada no show foi o samba-enredo composto pelo parceiro de Roberto, Erasmo Carlos, para a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. Mas antes da bateria da escola, que em 2011 homenageia Roberto Carlos, entrar no palco, o Rei fez questão de explicar: “O samba não foi o vencedor da disputa, mas isso não importa.”
Depois, Neguinho da Beija-Flor empolga com o samba oficial de 2011 da escola e a porta-bandeira Selminha Sorriso prestou homenagem ao Rei. Roberto Carlos encerrou a noite com “Noite Feliz” e ”Jesus Cristo”.