Kung-Fu/1972

 

Ficha-Técnica

Título: Kung-Fu (Kung-Fu/1972/EUA/Cor)
Criação: Howard Friedlander e Bruce Lee (co-criador)
Direção: Jerry Thorpe
Elenco: David Carradine (Caine), Barry Sullivan (Dillon), Albert Salmi (Raif), Wayne Maunder (McKay),
Benson Fong (Han Fei), Richard Loo (Master Sun), Keye Luke (Master Po), Philip Ahn (Master Kan), Victor Sen Yung (Chuen), Robert Ito (Fong), James Hong (Hsiang), Radames Pera (Young Caine), Roy Jenson (Fuller), John Leoning (Master Teh), David Chow (Little Monk)
Formato: 63 episódios de 50 minutos + 1 reunion
Dublagem: Cinecastro/RJ-SP

Introdução

No início da década de setenta o ocidente começara a alimentar-se de uma onda de curiosidade desperta a partir de meados da década antecessora. Através dessa tal onda, o homem - "civilizado" - do Ocidente passou a desejar os conhecimentos e as maneiras oriundos da Ásia, especialmente os relacionados às crenças espirituais, aos costumes e às artes marciais. Esse fato se revelou, sobremaneira, na moda e na música daqueles tempos; ambos tão bem representados pelos Hippies.

No turbilhão cultural do princípio dos "Seventies", uma série de TV surgira a tempo de ser "digerida" pelos anseios emergentes. No início da abertura desse seriado, se via um homem magro e alto caminhar - ao nascer de um novo dia - cabisbaixo sobre dunas, deixando seus passos impressos na areia ao mesmo tempo em que se ouvia uma triste e típica música chinesa. Um homem perseguido pelo passado e temeroso do futuro, preso numa terra inóspita na qual era desconsiderado como ser humano e na qual palavras como "honra" e "sabedoria" pouco significavam.

Era a série "Kung Fu", tomada pelos profissionais do meio como o primeiro "Eastern Western" ("Velho Oeste Oriental") da história da TV.

Origem da série - "A Pureza"

Kung Fu é, numa análise superficial, o conto do órfão que virou mestre das artes marciais; e, numa visão minimalista, é a história do homem que virou mestre de si próprio, senhor de sua consciência.

Kwai Chang Caine é um mestiço nascido na China, filho de pai americano e de mãe chinesa. O menino, por não ter aonde ir ou onde se estabelecer, acabou por bater aos portões do Templo Shaolin. Embora mestiço, foi aceito pelo grande mentor daquele templo, Mestre Kan (interpretado pelo falecido Philip Ahn), o qual ignorou a premissa Shaolin - de que apenas chineses legítimos são admitidos - por ter sentido algo "especial" pelo pobre garoto solitário.

Como parte da abertura da série, a nós é mostrada uma cena em flashback, representante de um dos primeiros momentos do jovem Caine no referido templo. Mestre Kan, suportando uma pequena pedra sobre a palma da mão aberta, diz ao garoto: "- Tão rápido quanto puder, arrebata a pedra de minha mão". Obviamente, Caine efetuou tentativa frustrada, pois o velho Chinês encerrou a mão tão rapidamente quanto um piscar de olhos. O mestre, então, explicou ao garoto a forma através da qual deixaria o templo: se Caine conseguisse arrebatar a pedra, estaria apto a partir.

Caine, de fato, lá permaneceu por anos, até ter se tornado um adulto. Durante o tempo decorrido no templo, aprendeu todos os segredos e técnicas do kung fu, como por exemplo, os estilos "animais" representantes das respectivas disciplinas: autocontrole, suavidade, velocidade, paciência, graça, dentre outras. Aprendeu a cuidadosamente caminhar sobre folhas feitas de arroz, dotado de tamanha suavidade capaz de não amassa-las e de não produzir ruídos. A lição essencial dentre todas, entretanto, foi a de controlar a "força interior"; algo batizado pelos chineses de Chi.

Caine cresceu ao lado de outro grande professor, Mestre Pô (interpretado pelo falecido Keye Luke), de quem se admirou muito e por quem nutriu amor e carinho. Esse mestre, aliás, foi o responsável pelo apelido dado ao menino: Gafanhoto. Mestre Pô era cego. O fato aguçou a curiosidade do infante, que, por ter sentido pena de seu tutor (na constatação da cegueira) disparou um dos diálogos mais bonitos da série:

Mestre Pô: Feche seus olhos. O que ouve?
Jovem Caine: Ouço o som da água. Ouço um pássaro.
Mestre Pô: Ouve o tilintar de seu próprio coração?
Jovem Caine: Não...
Mestre Pô: Ouve o gafanhoto que está aos seus pés?
Jovem Caine (de olhos abertos e remetidos ao chão):
Velho, como consegue ouvir essas coisas?
Mestre Pô: Meu Jovem, como não consegue ouvi-las?

A partir desse momento, Caine passou a ser chamado por "Gafanhoto".

O momento chegou, finalmente, e Caine foi capaz de arrebatar a pedra da mão de Mestre Kan. Antes de partir, contudo, devia receber a "graça" por ter atingido o status de Mestre Shaolin. A isso visando, Caine precisaria - num ritual de passagem - caminhar por um longo corredor repleto de perigos ao final do qual jazia um caldeirão cheio de carvões em brasa. Às laterais do artefato havia as figuras de um tigre e de um dragão. Aos olhos de todos os mestres com os quais Caine estudou, precisaria erguer o referido caldeirão, segurando-o com os braços e punhos. Passados alguns segundos, precisaria coloca-lo de volta.

A cerimônia foi favoravelmente realizada. Ao executar o procedimento acima descrito, Caine recebeu em seus braços, involuntariamente, as marcas do dragão e do tigre; "impressas" pelo calor do caldeirão à pele do Shaolin. Caine deixara de ser o aprendiz que fora durante anos. A partir daquele momento já era mestre.