Lançamentos?

 

Às pessoas que não me conhecem, sou fã e colecionador de séries de tevê desde o século passado (já podemos dizer isso, não é?). Cresci assistindo séries, desenhos e filmes.

Desde pequeno, e tenho certeza que muitos passaram por isso, sonhava que um dia haveria um aparelho que pudesse gravar imagem e som da televisão para que pudesse assistir às séries que eu gostava na hora que eu quisesse. Isso foi anos antes do vídeo cassete e, com certeza, muitos anos antes que o DVD.

Na época do vídeo, as séries não chegaram a se tornar mania e, por isso, as distribuidoras não se preocuparam e selar fitas com elas. Agora, basta passar na tevê e fazer um relativo sucesso e, pimba! Lá está a primeira temporada em box de DVD com extras e imagem impecáveis. Se isso não é suficiente para o fã mais ansioso, basta fazer download de episódios e assisti-los quase que simultaneamente à sua exibição nos EUA.


"Os Três Patetas: Os Clássicos do Curly" foi o 1º DVD de série clássica a sair no Brasil (18/06/99)

Com essa mudança gritante do mercado, gostaria de conversar sobre os aspectos que estão relacionados ao lançamento de séries clássicas em DVD. Muitos fãs desse gênero reclamam, e com razão, da forma como esse item está sendo tratado pelas distribuidoras em geral. A primeira série a chegar no mercado brasileiro foi Os Três Patetas (Sony Pictures) em 1999, já com dublagem. Mas Perdidos no Espaço (Fox), lançada entre 2004/05, foi a primeira série clássica a ter todos os episódios lançados com sua respectiva dublagem. Levando em consideração que o DVD começou a ser lançado no mercado brasileiro em 1998 (são 10 anos de DVD no Brasil), não dá para dizer que as séries clássicas estão chegando em quantidade suficiente para fazer valer esse tempo.

Embora continuem chegando às prateleiras, o ritmo é mais lento que as séries atuais. Muitos questionam as escolhas de títulos, outros, a falta de dublagem original, outros, o preço, e ainda temos o problema de não disponibilizarem séries completas.

Bom, não tenho as respostas para todas essas dúvidas, mas vou comentar o que sei a respeito de tudo isso. Um dos problemas que envolvem a disponibilização de séries clássicas é o contrato de distribuição. Os contratos dessas produções duram de 30 a 40 anos e muitos já expiraram. Agora, precisam ser renovados. No entanto, como o produto já confirmou ser vendável e ter uma legião de fãs no mundo todo, os valores e as condições são diferentes daquelas de quando a série foi produzida e não se sabia se teria público. Muitos dos responsáveis pela produção, e portanto os detentores dos direitos autorais, já morreram e as distribuidoras precisam lidar com seus descendentes, um número maior que antes, os quais precisam estar de acordo. Se um lado não concorda, a série fica trancada.



A outra questão é o resgate da dublagem original (a dublagem feita na época em que a série chegou à tevê brasileira). Bom, esse é um problema delicado. Se por um lado existem fãs que não se importam com a ausência do som em português, outros fazem questão, criticando inclusive a qualidade da redublagem feita por algumas distribuidoras, ou mesmo a atitude em optar pela redublagem quando existe a original.

Perdidos no Espaço: 1ª série clássica a obter grande sucesso de vendas no Brasil

A dublagem original das séries sofreu vários problemas ao longo dos anos. Algumas distribuidoras não armazenaram bem as fitas com o som em português, e com isso elas se deterioraram. Algumas distribuidoras, como a Fox por exemplo, têm praticamente todo o seu acervo muito bem guardado. Outras, sofreram inundações e mofo, e existem alguns casos do som ter sido devolvido à distribuidora americana, que destruiu o material. Isso ocorria porque quando o contrato de exibição da série no Brasil terminava, a distribuidora brasileira era obrigada a devolver a cópia do filme/série aos EUA e, às vezes, devolvia o som junto. A regra dos americanos é destruir a cópia que já está desgastada (tal qual é feito com o dinheiro velho).

No entanto, muitos fãs ficariam surpresos em descobrir quantas dublagens ainda sobreviveram com o tempo e os maus tratos. Não só dublagem das séries como dos filmes. Portanto, as distribuidoras não têm motivos, ou pelos menos não deveriam se apoiar nesse argumento sem ao menos conferir se o som ainda existe ou não.

Mas aí, esbarramos em um novo problema. Se o som sobreviveu, ele com certeza está abaixo da qualidade do mundo digital de hoje. Feito em fitas magnéticas, é natural que esteja abafado ou com chiados. Para ser utilizado com o mínimo de qualidade, é necessário remasterizar o som, da mesma forma como é feita com a imagem. E é aí que geralmente a engrenagem emperra. O custo e o tempo que leva é considerado muito alto. O som é arrumado quase que manualmente, trecho por trecho e a distribuidora americana, que é quem decide no final o que vai ser lançado e como, não vê motivos para tanto.

Por quê isso? Bom, basta olhar um pouco para trás, para o início da TV por assinatura no Brasil. É o mesmo processo da distribuição de DVD, com a diferença que os filmes estão tendo um cuidado diferenciado das séries. Ou seja, vêm com a dublagem e com extras. As séries novas até vêm com dublagem, mas acabam sendo desnecessárias, já que a cultura da TV paga já estabeleceu ao longo dos anos a exibição de novas séries em inglês com legendas (facilita o custo e a rapidez em colocar no ar).



Para o americano que acredita que todo mundo deveria falar inglês, não é vantagem resgatar a dublagem de uma série com mais de 100 episódios, por exemplo. Por outro lado, os fãs insistem. As distribuidoras no Brasil sabem da necessidade de lançar as séries clássicas com a dublagem original, mas ainda enfrentam a resistência das matrizes [americanas] de suas empresas, que é quem decide no final e visa o lucro sem muitos gastos. Com isso, fica um impasse. O problema aumenta quando algumas séries, que nem são tão antigas assim, são lançadas apenas com som original. Os fãs reclamam, as vendas caem e, ao invés de satisfazer seu público alvo, optam em não lançar outros produtos, ou ficam com receio de fazê-lo. Ainda acreditam que os fãs desse gênero são poucos em relação ao público de séries novas ou filmes de ação.

Eles teriam razão? Não acredito. Não só esse público é numeroso como faz parte de uma população que recebeu o produto DVD de braços abertos, criando um mercado rentável. Algo que não ocorre com os demais países da América Latina. Se somos um mercado interessante financeiramente, porque moldar o público às regras pré-estabelecidas das distribuidoras? Não deveria ser o contrário? Ou seja, cada tipo de público com seu respectivo produto, a exemplo dos fãs de séries atuais e dos fãs de filmes clássicos.

Mas, voltando aos problemas, outra questão que enfrentamos é a imposição do mercado americano, que vai além da decisão da dublagem. Em alguns casos, a distribuidora brasileira é obrigada a lançar uma determinada série, mesmo sabendo que não vai vender tanto quanto outra. Alguém aqui comprou o box da série Cheers, lançada pela Paramount do Brasil??

Batman: briga judicial vem impedindo seu lançamento em DVD

Outras vezes, a série está nas mãos de mais de uma distribuidora. O que significa isso? Que uma distribuidora X tem o direito de lançar a série em um determinado mercado e a distribuidora Y em outro, podendo haver o interesse do produtor, mas não da distribuidora. Tem também o caso da renovação de contrato ter estabelecido valores apenas para o mercado doméstico (EUA) e não ter chegado a um acordo para os países latinos, por exemplo. Por fim, ainda há o problema de séries como Batman, por exemplo, que não está sendo disponibilizada em DVD ainda porque a produção é da Fox, mas os direitos do personagem pertencem à Warner.


Por fim, depois de terem conseguido passar por todas essas dificuldades, ainda temos mais uma. Algumas das pessoas responsáveis pela escolha das séries que estão disponíveis para o mercado brasileiro não conhecem o assunto. O problema desta questão não é o fato de lançarem títulos que muitos fãs consideram inadequados no momento, é o fato de não haver uma continuidade que permita a disponibilidade para o mercado de outras séries mais importantes no gênero e, desta forma, equilibrando o gosto do público. É claro que aí caímos em outra questão. Com o lançamento contínuo de séries importantes para o gênero, o brasileiro teria dinheiro para comprar? A resposta é simples: alguma vez tiveram a necessidade de se fazerem essa pergunta como condição de lançamento das centenas de filmes clássicos que chegaram, e continuam chegando, ao mercado brasileiro?

Por não conhecerem o gênero, caem na armadilha de não saberem o que lançar, como divulgar e muito menos de lutar por ela. E não estou falando em lutar por um produto, mas em lutar por um título, como foi o caso da já citada Perdidos no Espaço. Esta série foi o primeiro grande sucesso de vendas do mercado brasileiro de séries clássicas, mas somente chegou às nossas mãos graças à determinação de quem estava na gerência do cargo na época, que se uniu a pessoas, fãs brasileiros, e durante quase um ano, lutaram juntos para que a série chegasse ao mercado na forma correta e com a divulgação adequada.

Qual a solução para essa questão? As distribuidoras aceitarem que existe um mercado específico, estável e até mesmo crescente de séries clássicas no Brasil e passar a tratá-lo como tal, explorando sua potencialidade e seu perfil corretamente e, principalmente, lutando por ele junto aos americanos.

Espero que esse artigo tenha servido como uma crítica construtiva às distribuidoras, além de ter esclarecido algumas questões ao público, apesar das confusões dos caminhos percorridos para a disponibilização de uma série clássica no Brasil. É possível que depois de tudo isso ainda tenham sobrado algumas dúvidas, ou ter criadas novas... Mas uma coisa é certa: a continuidade desses lançamentos depende da venda, que por sua vez depende dos cuidados com o produto e da divulgação. Enquanto isso não for feito, a situação continuará do jeito que está.